terça-feira, 9 de março de 2010

Entrevista: Ewerton, Goleiro da Portuguesa nos Anos 80

"Num futuro bem próximo, a Lusa vai conquistar os títulos que sua história merece"


Ewerton jogou na Portuguesa entre 1979 e 1987, quando o clube era muito mais respeitado e levava mais torcedores ao Canindé. O goleiro integrava o elenco que disputou a final do primeiro turno do Campeonato Paulista de 1980 e da decisão de 1985, contra o São Paulo.

Nesta entrevista, ele lembra a estreia contra o Corinthians, quando deu, com a mão, um "chapéu" em Sócrates, lamenta a lesão no rim que comprometeu a sua carreira, cita os colegas Toquinho, Mendonça, Serginho e Moacir e compara Vágner Benazzi a Jair Picerni: "são treinadores que se identificam muito com a Portuguesa". Leia na íntegra:

Você jogou oito anos pela Portuguesa, entre 1979 e 1987. Qual a maior lembrança desse período?
A amizade entre todos os jogadores que passaram pela Portuguesa e a relação com a torcida, que era bastante cordial.

Hoje é quase impossível um jogador ficar tanto tempo assim em um clube. O que mudou no mundo do futebol de lá para cá?
O amor pelo clube desapareceu. Hoje um jogador troca de clube muitas vezes por pequenas vantagens financeiras, sem levar em consideração se vai se sentir bem jogando em um outro lugar.

Em 1980, a Portuguesa era comandada por Mario Travaglini e chegou às finais do primeiro turno do Paulistão contra o Santos. Foi uma campanha brilhante, mas a Lusa acabou perdendo os dois jogos finais. Qual o motivo do revés?
A qualidade técnica do Santos era superior. Nós tínhamos uma equipe muito boa coletivamente, mas nas finais acabou prevalecendo a qualidade individual de alguns jogadores do Santos.

"O que pode ter determinado a nossa derrota nas finais de 1985 foi a falta de força política da Portuguesa"

Você também fazia parte do elenco que disputou as finais de 1985. O que faltou para a conquista do título?
Assim como em 1980, também tínhamos uma equipe muito boa e com vários jogadores de ótima qualidade técnica. Mas o que pode ter determinado a nossa derrota foi a falta de força política da Portuguesa, já que os dois jogos finais foram realizados na casa do São Paulo, o Morumbi.

A Portuguesa era muito mais respeitada naqueles anos. O que fazer para recuperar o prestígio perdido?
Primeiro, recuperar a credibilidade administrativa e, depois, voltar a estar presente nas grandes decisões do futebol paulista e brasileiro.

Você começou sua carreira no Estrela-RS. Como surgiu o interesse da Lusa em contratá-lo?
Um conselheiro que morava no Rio Grande do Sul assistiu a alguns jogos e me recomendou ao Sr. Osvaldo Teixeira Duarte.

"Na minha estreia contra o Corinthians aconteceu um lance que ficou muito marcado: dei um "chapéu" no Sócrates"

Você lembra alguma partida, ou mais de uma, da Lusa que tenha te marcado muito?
Tenho duas: uma positiva e outra negativa. A positiva foi a minha estreia contra o Corinthians, no Pacaembu, quando aconteceu um lance que ficou muito marcado: dei um "chapeuzinho" no Sócrates. Foi com a mão, é claro, mas foi no Sócrates! A negativa foi o jogo contra o Palmeiras em que me machuquei e tive que operar o rim, quando estava no melhor momento da minha minha carreira.

Qual o melhor técnico com que você trabalhou na Portuguesa?
Foram vários, mas destaco o Mario Travaglini e o Jair Picerni.

Na série de figurinhas do Futebol Cards, você afirmou que “seriedade, dedicação e consciência profissional são fundamentais” para a carreira de um jogador. Hoje, com grandes patrocínios e muito dinheiro no mundo do futebol, o que mais é necessário para um atleta ser bem-sucedido?
Estes itens devem continuar a ser seguidos muito mais do que antes, já que a concorrência hoje é muito maior no futebol. É importante lembrar que o número de jogadores que são formados pelas categorias de base dos clubes aumentou e existem, também, várias equipes com centros de treinamentos mantidos por empresários, que não pertencem a nenhum clube de tradição no futebol brasileiro.
 
"Fiz uma boa amizade com o Serginho "Boneca" e o Moacir "Cachorro", que eram os meus “concorrentes”"
 
Você jogou com Enéas, Toquinho, Caio. Quais eram os seus melhores companheiros naquela época?
Toquinho e eu éramos vizinhos e íamos juntos ao treino. Mais tarde, o Mendonça também foi morar no mesmo prédio e mantivemos uma forte amizade. Também fiz uma boa amizade com o Serginho "Boneca" e o Moacir "Cachorro", que eram os meus “concorrentes”.

Tem contato com algum deles ainda?
Muito pouco. Cada um foi para um lado.

Depois que começou a sua carreira de técnico, pensou em algum momento em assumir a Lusa?
É difícil porque me estabeleci no Rio Grande do Sul. Mas se surgir a oportunidade podemos conversar.

"Benazzi é hoje para a Lusa o que era o Jair Picerni tempos atrás"

Você acompanha atualmente os jogos da Lusa? O que acha do elenco e do trabalho do Benazzi?
Do elenco pouco conheço. Mas o Benazzi é hoje para a Lusa o que era o Jair Picerni tempos atrás. São treinadores que se identificam muito com a Portuguesa.

A Portuguesa enfrentou o Santos no último domingo, jogou bem e acabou empatando. Qual segredo vencer jogos como este? 
Para ganhar clássicos só existe uma receita para a vitória: respeitar sem se intimidar.

Você tentaria mudar alguma coisa se pudesse voltar no tempo e defender novamente a Portuguesa?
Talvez eliminaria o jogo em que sofri a lesão no rim. Essa lesão atrasou um pouco a minha carreira.

Fale sobre a sua carreira depois da Portuguesa. O que faz atualmente?
Sai da Portuguesa e fui para o Noroeste de Bauru, onde disputei o Paulistão de 1987. Depois fui para o Marítimo da Ilha da Madeira, onde fiquei por 13 anos. Primeiro, como jogador, depois como treinador das categorias de base e, por fim, auxiliar técnico da equipe profissional. Voltei ao Brasil e trabalhei como treinador de juniores no Caxias e no Juventude.

Deixe uma palavra ao torcedor rubro-verde
Acredite sempre, pois tenho certeza que num futuro bem próximo a Lusa vai conquistar os títulos que sua história merece.

Quer saber mais sobre o Ewerton?
Visite a página do goleiro:
http://www.treinamentosdefutebol.com.br/

Meu twitter: http://www.twitter.com_renatopereira/

terça-feira, 2 de março de 2010

Marcelo Duarte


Marcelo Duarte é louco por futebol desde pequenininho, quando ficava de plantão na banca de jornal aguardando todas as terças-feiras sua publicação favorita: a revista Placar. Já jornalista, realizou o sonho de trabalhar na própria Placar, onde começou como estagiário e ficou até se tornar diretor de redação.

Passou pelas redações de Playboy, Veja São Paulo e colaborou com revistas como Próxima Viagem, Sexy e Set. Como escritor, publicou a série de livros “O Guia dos Curiosos”, um dos maiores sucessos editoriais do país.

Marcelo é um dos “Loucos por Futebol” da ESPN-Brasil, apresenta o “Você é Curioso?” na Rádio Bandeirantes e escreve no Jornal da Tarde. Na internet, atualiza diariamente o site www.guiadoscuriosos.com.br e comanda o programa “TV Curioso”.

Nesta entrevista, ele fala como virou um louco por futebol, comenta fatos curiosos do esporte e relembra histórias marcantes de sua carreira. Sobre a possibilidade de o Brasil ganhar a Copa do Mundo, Marcelo diz: “o Dunga, com seu estilo pragmático, tem tudo para faturar a Copa. E como ele não quer ser lembrado como um cara que conquistou grandes goleadas, não acho que isso seja impossível”. Leia na íntegra:

Desde quando você é um louco por futebol?
Desde pequenininho. Eu tinha uns 8 ou 9 anos e me apaixonei pela revista Placar. Eu tinha uma ansiedade maluca para que chegasse logo terça-feira, que era o dia que a revista circulava, para ir correndo até a banca e comprar o meu exemplar. Muitas vezes eu chegava na banca antes que a revista e voltava para casa muito nervoso! Uma vez teve uma exposição da Placar no MASP e percebi que eu tinha um acervo maior do que o da própria revista. Naquele tempo, eu já sabia décor a escalação do Sergipe e de tudo que é time do Brasil.

Então você realizou um sonho quando foi trabalhar na Placar?
Claro! Era a revista que eu me identificava, que eu lia sempre. Era "muito forte" trabalhar lá. Olha, eu comecei a trabalhar na Placar assim: eu mandava cartas toda a semana para a redação e, em uma ocasião, eu escrevi um conto que gostaram e publicaram em uma edição de fim de ano. Depois perguntaram se eu queria passar um "período de férias" na redação - e claro que aceitei, já que eu estava no segundo ano de jornalismo! O fato é que entrei como estagiário e só sai de lá como diretor de redação.

Sempre que leio as edições antigas da revista Placar, tenho a sensação de que o jornalismo era diferente. O texto, a diagramação, o conteúdo parecem que eram melhores. O jornalismo esportivo mudou muito?
Não sei se o jornalismo mudou tanto assim. Mas antes o jornalista podia se preocupar mais com a qualidade do texto, e os jogadores eram mais disponíveis. Hoje, como a informação está mais rápida e acessível, os repórteres estão mais preocupados em dar uma notícia antecipada a buscar a profundidade da informação. No meu tempo, eu tinha acesso a todos os jogadores. Se eu estivesse fazendo uma coisa diferenciada, podia escolher o jogador que eu quisesse para fazer um perfil ou outras coisas desse tipo. Hoje, é o clube que escolhe quem vai falar e os atletas são reticentes, pensam muito em preservação de imagem. Mais do que tudo, mudou o relacionamento do repórter com o entrevistado. E atualmente se escreve bem menos do que antes.

Falando nisso, hoje os repórteres não podem mais entrar em campo para entrevistar os jogadores. Eles têm que esperar os atletas saírem do gramado para conseguir uma entrevista. Você é favorável a isso?
Favorável eu não sou. Limita demais o trabalho em campo. Por outro lado, essa é uma medida internacional, implantada no mundo inteiro. É bom que você democratiza a informação. Se o Mano Menezes resolver falar com um, ele vai ter que falar com todos.

Você é jornalista há mais de 25 anos. Qual a história mais curiosa sobre futebol que presenciou?
Tem uma que eu adorei. Foi num jogo no Canindé, entre Corinthians X União Bandeirante ou Corinthians X Ponte Preta, não lembro o adversário direito. Foi num jogo à noite, em que a torcida organizada do Corinthians fez um protesto e resolveu não entrar em campo. Eu "fiquei infiltrado" na torcida, que queria apagar a luz do estádio durante a realização da partida. Os torcedores se reuniram e ficaram pensando em como apagar as luzes do refletor, coisa tipo inspetor Closeau mesmo. Claro que os torcedores não conseguiram deixar o estádio às escuras. Todos os repórteres entraram em campo e eu fui o único que não entrou. Mas fiz uma matéria diferenciada. Aliás, eu deixei de ver muito futebol para acompanhar os bastidores. Consegui muitas coisas legais por conta disso.

E qual a melhor reportagem sobre futebol que você já realizou?
Gostei muito da final do Campeonato Paulista de 1988, fiz um texto inspirado e a cobertura foi show. Também ganhei um prêmio pela reportagem que foi capa da Veja São Paulo, sobre o enriquecimento ilegal de José Farah, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, que também foi muito importante para mim.

Onde você prefere trabalhar, rádio, TV, jornal ou internet?
Eu gosto de tudo em jornalismo, mas o rádio é que te permite ousar mais, explorar melhor o lado lúdico das pessoas. É um veículo que te dá muitas possibilidades. Você está com o ouvinte em todos os lugares. É um canal de comunicação surpreendente. Por outro lado, eu fui formado em revista. A revista te ensina um jeito diferente de fazer jornalismo. Acredito que depois que se trabalha em revista, o jornalista pode trabalhar em qualquer lugar. Imagine: a revista chega na banca, na terça-feira, depois que os gols já foram mostrados na TV, repetidos exaustivamente no rádio e publicados nos jornais. E você tem que fazer com que aquilo ainda tenha algum interesse depois disso tudo. É, sem dúvidas, um verdadeiro exercício de criatividade jornalística.

O que acha do surgimento de tantos blogs?
Eu acho o máximo. Hoje você tem tudo, sobre qualquer assunto na internet. Acho que os blogueiros podem fazer algo diferenciado, que é dar opiniões e comentar livremente. Para o jornalista não muda muito. Tem que ter responsabilidade, apurar, checar....

Estamos em ano da Copa do Mundo. Você acha que o Brasil vai ser o campeão?
Olha, eu não duvido não. O Dunga, com seu estilo pragmático, tem tudo para faturar a Copa, sim. E como ele não quer ser lembrado como um cara que conquistou grandes goleadas, não acho isso impossível não. Além disso, como a Copa será realizada em um continente neutro, creio que a conquista seja mais possível ainda. 

E sobre a próxima Copa do Mundo ser no Brasil. Qual a sua opinião?
Eu gostaria que nós tirássemos algum proveito social disso. Claro que é espetacular ter uma Copa do Mundo na sua casa. Para todo mundo, isso é ótimo! É uma grande chance de melhorar um monte de coisas: acabar com atrasos nos aeroportos, melhorar banheiros e alimentação nos estádios, é uma chance de termos estacionamentos e mios de transporte decentes. Mas não adianta sermos um país de primeiro mundo durante um mês e depois voltarmos a ser o que éramos antes. Se a Copa no Brasil ajudar o país a ter um pouco mais de educação vai ser ótimo, tendo em vista a fortuna que será gasta.

E sobre a medida que determina que os jogos acabem até 23h15? O que você acha?
Eu não acredito mais em Papai Noel. Acho que é utopia a Câmara Municipal sancionar a lei que obriga os jogos acabarem às 23h15. O horário ideal seria das das 8h às 22 h para o povo voltar para a casa tranquilo e ter à disposição alguns serviços essenciais, como transporte e segurança. Mas como a TV Globo paga para exibir os jogos, a tendência é que, cada vez mais, o público assista às partidas pela TV. Além disso, pouca gente vai se dispor a correr risco a ir a um jogo às 22h.