terça-feira, 2 de março de 2010
Marcelo Duarte
Marcelo Duarte é louco por futebol desde pequenininho, quando ficava de plantão na banca de jornal aguardando todas as terças-feiras sua publicação favorita: a revista Placar. Já jornalista, realizou o sonho de trabalhar na própria Placar, onde começou como estagiário e ficou até se tornar diretor de redação.
Passou pelas redações de Playboy, Veja São Paulo e colaborou com revistas como Próxima Viagem, Sexy e Set. Como escritor, publicou a série de livros “O Guia dos Curiosos”, um dos maiores sucessos editoriais do país.
Marcelo é um dos “Loucos por Futebol” da ESPN-Brasil, apresenta o “Você é Curioso?” na Rádio Bandeirantes e escreve no Jornal da Tarde. Na internet, atualiza diariamente o site www.guiadoscuriosos.com.br e comanda o programa “TV Curioso”.
Nesta entrevista, ele fala como virou um louco por futebol, comenta fatos curiosos do esporte e relembra histórias marcantes de sua carreira. Sobre a possibilidade de o Brasil ganhar a Copa do Mundo, Marcelo diz: “o Dunga, com seu estilo pragmático, tem tudo para faturar a Copa. E como ele não quer ser lembrado como um cara que conquistou grandes goleadas, não acho que isso seja impossível”. Leia na íntegra:
Desde quando você é um louco por futebol?
Desde pequenininho. Eu tinha uns 8 ou 9 anos e me apaixonei pela revista Placar. Eu tinha uma ansiedade maluca para que chegasse logo terça-feira, que era o dia que a revista circulava, para ir correndo até a banca e comprar o meu exemplar. Muitas vezes eu chegava na banca antes que a revista e voltava para casa muito nervoso! Uma vez teve uma exposição da Placar no MASP e percebi que eu tinha um acervo maior do que o da própria revista. Naquele tempo, eu já sabia décor a escalação do Sergipe e de tudo que é time do Brasil.
Então você realizou um sonho quando foi trabalhar na Placar?
Claro! Era a revista que eu me identificava, que eu lia sempre. Era "muito forte" trabalhar lá. Olha, eu comecei a trabalhar na Placar assim: eu mandava cartas toda a semana para a redação e, em uma ocasião, eu escrevi um conto que gostaram e publicaram em uma edição de fim de ano. Depois perguntaram se eu queria passar um "período de férias" na redação - e claro que aceitei, já que eu estava no segundo ano de jornalismo! O fato é que entrei como estagiário e só sai de lá como diretor de redação.
Sempre que leio as edições antigas da revista Placar, tenho a sensação de que o jornalismo era diferente. O texto, a diagramação, o conteúdo parecem que eram melhores. O jornalismo esportivo mudou muito?
Não sei se o jornalismo mudou tanto assim. Mas antes o jornalista podia se preocupar mais com a qualidade do texto, e os jogadores eram mais disponíveis. Hoje, como a informação está mais rápida e acessível, os repórteres estão mais preocupados em dar uma notícia antecipada a buscar a profundidade da informação. No meu tempo, eu tinha acesso a todos os jogadores. Se eu estivesse fazendo uma coisa diferenciada, podia escolher o jogador que eu quisesse para fazer um perfil ou outras coisas desse tipo. Hoje, é o clube que escolhe quem vai falar e os atletas são reticentes, pensam muito em preservação de imagem. Mais do que tudo, mudou o relacionamento do repórter com o entrevistado. E atualmente se escreve bem menos do que antes.
Falando nisso, hoje os repórteres não podem mais entrar em campo para entrevistar os jogadores. Eles têm que esperar os atletas saírem do gramado para conseguir uma entrevista. Você é favorável a isso?
Favorável eu não sou. Limita demais o trabalho em campo. Por outro lado, essa é uma medida internacional, implantada no mundo inteiro. É bom que você democratiza a informação. Se o Mano Menezes resolver falar com um, ele vai ter que falar com todos.
Você é jornalista há mais de 25 anos. Qual a história mais curiosa sobre futebol que presenciou?
Tem uma que eu adorei. Foi num jogo no Canindé, entre Corinthians X União Bandeirante ou Corinthians X Ponte Preta, não lembro o adversário direito. Foi num jogo à noite, em que a torcida organizada do Corinthians fez um protesto e resolveu não entrar em campo. Eu "fiquei infiltrado" na torcida, que queria apagar a luz do estádio durante a realização da partida. Os torcedores se reuniram e ficaram pensando em como apagar as luzes do refletor, coisa tipo inspetor Closeau mesmo. Claro que os torcedores não conseguiram deixar o estádio às escuras. Todos os repórteres entraram em campo e eu fui o único que não entrou. Mas fiz uma matéria diferenciada. Aliás, eu deixei de ver muito futebol para acompanhar os bastidores. Consegui muitas coisas legais por conta disso.
E qual a melhor reportagem sobre futebol que você já realizou?
Gostei muito da final do Campeonato Paulista de 1988, fiz um texto inspirado e a cobertura foi show. Também ganhei um prêmio pela reportagem que foi capa da Veja São Paulo, sobre o enriquecimento ilegal de José Farah, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, que também foi muito importante para mim.
Onde você prefere trabalhar, rádio, TV, jornal ou internet?
Eu gosto de tudo em jornalismo, mas o rádio é que te permite ousar mais, explorar melhor o lado lúdico das pessoas. É um veículo que te dá muitas possibilidades. Você está com o ouvinte em todos os lugares. É um canal de comunicação surpreendente. Por outro lado, eu fui formado em revista. A revista te ensina um jeito diferente de fazer jornalismo. Acredito que depois que se trabalha em revista, o jornalista pode trabalhar em qualquer lugar. Imagine: a revista chega na banca, na terça-feira, depois que os gols já foram mostrados na TV, repetidos exaustivamente no rádio e publicados nos jornais. E você tem que fazer com que aquilo ainda tenha algum interesse depois disso tudo. É, sem dúvidas, um verdadeiro exercício de criatividade jornalística.
O que acha do surgimento de tantos blogs?
Eu acho o máximo. Hoje você tem tudo, sobre qualquer assunto na internet. Acho que os blogueiros podem fazer algo diferenciado, que é dar opiniões e comentar livremente. Para o jornalista não muda muito. Tem que ter responsabilidade, apurar, checar....
Estamos em ano da Copa do Mundo. Você acha que o Brasil vai ser o campeão?
Olha, eu não duvido não. O Dunga, com seu estilo pragmático, tem tudo para faturar a Copa, sim. E como ele não quer ser lembrado como um cara que conquistou grandes goleadas, não acho isso impossível não. Além disso, como a Copa será realizada em um continente neutro, creio que a conquista seja mais possível ainda.
E sobre a próxima Copa do Mundo ser no Brasil. Qual a sua opinião?
Eu gostaria que nós tirássemos algum proveito social disso. Claro que é espetacular ter uma Copa do Mundo na sua casa. Para todo mundo, isso é ótimo! É uma grande chance de melhorar um monte de coisas: acabar com atrasos nos aeroportos, melhorar banheiros e alimentação nos estádios, é uma chance de termos estacionamentos e mios de transporte decentes. Mas não adianta sermos um país de primeiro mundo durante um mês e depois voltarmos a ser o que éramos antes. Se a Copa no Brasil ajudar o país a ter um pouco mais de educação vai ser ótimo, tendo em vista a fortuna que será gasta.
E sobre a medida que determina que os jogos acabem até 23h15? O que você acha?
Eu não acredito mais em Papai Noel. Acho que é utopia a Câmara Municipal sancionar a lei que obriga os jogos acabarem às 23h15. O horário ideal seria das das 8h às 22 h para o povo voltar para a casa tranquilo e ter à disposição alguns serviços essenciais, como transporte e segurança. Mas como a TV Globo paga para exibir os jogos, a tendência é que, cada vez mais, o público assista às partidas pela TV. Além disso, pouca gente vai se dispor a correr risco a ir a um jogo às 22h.
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Entrou como estagiário e saiu como diretor? Como assim? Que super bom exemplo, de animar qualquer um... Muito boa a entrevista!
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